Nasci em 29 de Janeiro de 1953.
Dizem as efemerides que nesse dia houve um eclipse da Lua,não acredito nos astros por isso nada acrescentou ao meu nascimento.
Filho de um casal pobre,ele caixeiro de uma sapataria nas Escadinhas do Duque e ela ,como antigamente se dizia,mulher a dias.
Pobres,mas nunca passei fome.
Foi uma infãncia descuidada,o amor que recebi o devo a meus tios paternos que me tratavam como um filho.
Comecei a ler aos cinco anos e daí para a frente devorava tudo o que me aparecia.
Deu-se a sorte de a minha mãe ir trabalhar para casa de um ricaço,que dizem as más linguas,internou a mulher num hospicio para poder viver com a criada.
Esta criada patroa e o seu amante gostavam muito de mim e,prazer dos prazeres,deixavam-me tardes inteiras na biblioteca com autorização para ler tudo o que ela contivesse.
Para um miudo como eu,foi o ceu,li Julio Verne inteirinho,devorei os Geographic Magazines,embora não entendesse inglês.
Depois li Eça,Camilo,Forbela Espanca,leituras que muitas vezes não entendia.
Esse velho ricaço e vamos chamar-lhe Dr. Zé,então ia-me explicando aquilo que não conseguia perceber.
Contava-me histórias dessa África tão distante onde tinha feito fortuna,contava-me os feitos dos nossos heróis e como nasceu Portugal.
E eu sentia uma sede de aventura que me tomava de tal maneira que os meus sonhos eram povoados de feitos e aventuras heroicas que eu haveria de praticar.
Vivi sempre na Parede,no principio e até os meus pais subirem a pulso,de pobres a classe média numa vila(era igual aos pátios lisboetas mas em L,pequenas vivendas com um bocadinho de quintal,sem wc,um quarto interior,uma salinha e a cozinha.
Com o tempo fizeram-se obras e passou a ter casa de banho.
Tinhamos coelhos,galinhas e patos.
Cheguei a ter um pato só meu que me acompanhava até à rua principal e quando eu voltava da escola lá estava ele à minha espera.
Sei que estou a maçar o leitor,que se calhar esperava grandes tramas e mistérios.
Mas queria deixar o testemunho do viver desses tempos,em que um par de ténis era sapatilhas de ginástica Sanjo(português de gema).
De resto no inverno botas de ensebar com sola de pneu de avião(um luxo),retirados dos excedentes da 2ª guerra e de verão sandálias com a mesma sola.
Porque essa sola durava e durava e durava.
O azeiteiro corria todas as casas e o essencial comprava-se a cinco tostões disto e mais dez tostões daquilo conforme o dinheirito que havia.
A principio vinha de carroça,puxada por um burro lazarento e onde debaixo de um toldo se misturava alegremente o sabão amarelo com alfaces,cenouras,azeite,petroleo para as candeias e sei lá que mais.
mais tarde enricou e já trazia uma camionete da qual tenho uma vaga ideia de ser Morris.
Depois vinha o leiteiro,como era bom aquele leite,acabadinho de vir da vaca.
Retirava-se a nata para fazer manteiga e depois era fervido para não se estragar.
O jornaleiro passava por volta das 11,dobrava os jornais em triângulo e com pontaria que me maravilhava ia atirando para as varandas dos seus clientes.
Os homens que trabalhavam atrás do balcão ou em escritórios,usavam só a parte da frente da camisa.
Primeiro vestiam a camisola interior,depois a camisa com a gola agarrada era presa à camisola e o casaco trazia as mangas cosidas na manga do dito.
estranho não é?
Mas pobre quando não tem inventa.
Quando o fato estava muito lustrado ou as golas e mangas das camisas puidas,virava-se o tecido.
Carne era proveniente da nossa capoeira ou então,em meses mais desafogados comprava-se carne de cavalo num talho em Stº Amaro de Oeiras.
Petiscos era mesmo só caracois,que os havia em abundância.
O que hoje se chama osso buco,era pedido nos talhos que ofereciam um osso de vaca aos mais pobres e aquele tutano era divinal.
Assim foi passando a minha infância,entre brincadeiras de indios e cowboys,leituras em casa do Dr. Zé e mais tarde a escola.
Não me vou alongar mais sobre a minha infância e adolescência até aos meus 16 anos.
Não ficaria bem para o herói de pacotilha que se pretende retratar que foi vitima de bullying,que era maltratado pelos pais e conhecido pelo caixa de oculos a par de um acne juvenil que nada ajudava aos namoros.
Uma vida,muitas vidas
Porquê
Este sou eu,como em todos os romances há partes tiradas da realidade e partes são fantasia.
Cabe ao leitor decidir se é tudo realidade ou não.
Cabe ao leitor decidir se é tudo realidade ou não.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Capitulo 1
Na vivenda sobranceira ao Guincho,no fim de um caminho de terra,olho o Atlântico sombrio que a duros golpes tenta engolir a terra e abrir caminho sabe-se lá para onde.
A meus pés,Demon o bull terrier recebe os raios de sol.
Maria,uma velha prostituta que tirei da vida,corpo já pesado da idade e a cara marcada pelos homens que se lambuzaram nela,vem de mansinho,com aquele ar de cão agradecido,que sempre usou desde que a trouxe para aqui e pergunta-me baixinho.
-O Senhor quer mais cafézinho.
Olho para ela e a minha cara normalmente dura abre uma espécie de sorriso.
-Sim Maria,obrigado.
Esta mulher,empedernida,iletrada,que um dia quando eu tinha os meus 30 anos me disse:
-Gosto de si como se de um irmão fora.
-Nunca iria consigo para a cama por dinheiro nenhum.
Só porque um dia quando cruzei o Cais do Codré com a minha ex mulher lhe dirigi a saudação.
Anos mais tarde,muitos,fui à procura dela e trouxe-a para o pé de mim.
É a pessoa que juntamente com o Quim "Maluco" me dão segurança.
O Quim Maluco,esse era guarda costa do dono de um Casino clandestino no Estoril.
Casino do qual eu era sócio.
Um assalto ao Casino e o Quim matou dois e feriu mais três dos assaltantes,só que uma shotgun levou-lhe o braço esquerdo.
Desde esse dia,ficou a meu cargo.
Uma vida,muitas vidas,os anos a pesar-me e as memórias correm dentro de mim como um rio revolto.
O meu pai,Deus o tenha em descanso,de carinhos não me lembro,só recriminações e o meu frágil corpo de então a servir para descarregar a raiva de ser pobre.
A minha mãe,essa coitada,andava com cinco anos à lenha e um pedaço de pão e um nico de queijo para refeição de todo o dia.
Pensou encontrar no meu pai o Eldorado da herança de uma tia que nunca veio.
Tornou-se azeda e carinhos também era coisa que não sabia dar.
O meu avô paterno,espanhol da Galiza,fotógrafo e boémio,autididata,veio a cavalo da Guerra de Espanha e por aqui ficou,fazendo dois filhos à mulher.
Nunca o conheci pessoalmente,só através de anotações em livros que guardo ciosamente.
Sei que se matou,quando a sifilis das suas aventuras o deixou,num momento de lucidez.
A minha avó paterna via em mim o fruto de um casamento falhado e tratava-me mal.
O meu avô materno,esse era carpinteiro,mestre na sua arte e um rancho de filhos.
A minha avó materna era mais um produto da época,baixinha,cabelo branco e muitas necessidades passadas.
-Patrãozinho tem aqui o café.
Minha linda Maria,como te quero tanto.
És como se fosses minha filha,somos da mesma idade mas tenho-te um amor infinito,por vezes apetece-me abraçar-te e cobrir-te de beijos ternos,doces,daqueles que nunca ninguem te deu.
Dizem que sou sobredotado,não sei,só sei que poderia ter sido muitas coisas.
Quis o destino que andasse sempre na margem da lei,aquele ténue risco que separa o legal do ilegal.
Quis o destino que sempre me cruzasse com dois tipos de pessoas,o lixo da sociedade e a sociedade feita de lixo.
E o engraçado é que não podem passar uma sem a outra,os trabalhos sujos são mandados por uns mas executados por outros,eu fui assim como que a ponte que os unia.
Sou da geração do 25 de Abril e dessa geração sairam os males que haveriam de destruir o meu País.
Sorvo delicadamente o café enquanto fumo um cigarro e respiro em profundos haustos este ar salino,este cheiro de maresia que invoca medos,aventuras e a coragem de quem o afronta.
Relembro aquelas lanchas voadoras que se afoitavam noite dentro para trazerem de barcos ao largo o contrabando.
As viagens a Marrocos,os mares revoltos que cortavam a face enquanto o barco voava sobre as ondas.
Tantas recordações,tantos amigos que perdi.
O Quim "Rodas",um louco a guiar,mas sempre trazendo a mercadoria em segurança.
O Chico "cauteleiro",acho que ainda é vivo,que me ensinou tudo sobre a lotaria clandestina.
O Senhor Julio,figura impar do Cais do Sodré,sessenta anos bem medidos,sobretudo de pele de camelo,fato completo e relogio com corrente de ouro,chefe dos carteiristas.
Era vê-los chegar para o café da manhã.
Uns vestidos casualmente,outros mais aprumados,mas todos de sapatos de ténis e qualquer peça de vestuário pendurada no braço.
Vinham ao beija mão ao chefe,bebiam apressadamente o café e iam à vida.
À noitinha voltavam e era ali mesmo à vista de todos que faziam a entrega do que tinham arrecadado.
O chefe,reunia tudo e dividia em partes iguais por todos.
Se um ia preso,sabia que a familia nunca ficava desamparada.
Esse ensinou-me tudo sobre a arte de ser carteirista.
Memórias que escorrem por entre os meus dedos.
Esses eram o tipo de pessoas pelas quais nutria respeito,os outros os de colarinho branco,esses metiam-me nojo.
O Joãozinho,dono do bar gay mais conhecido de Lisboa,depois de nos termos entendido sobre a orientação sexual de cada um de nós foi e será sempre alguém que estimo como se um pai fosse.
Com ele aprendi os meandros do mundo gay,descobri que dentro daqueles corpos trocados existe uma alma enorme,uma sensibilidade e uma bondade interior que só quem com eles privou pode saber.
Claro que este mundo descrito também tem o seu lado negro,gente que não vale um pataco,mas esses são postos à margem rápidamente,usam-se e deitam-se fora quando já prestaram o serviço que se pretendia.
Tanta gente para recordar.....
Os graxas,figuras que o progresso engoliu,uns velhos e sem outro meio de subsistência,outros gabirus do piorio,mas de todos se podia aproveitar qualquer coisa.
Serviram-me de olheiros,por eles sabia e avaliava o pulsar de Lisboa.
Assim como os barbeiros,auxiliares fundamentais na vida que escolhi ou que me escolheu,já nem sei bem.
A meus pés,Demon o bull terrier recebe os raios de sol.
Maria,uma velha prostituta que tirei da vida,corpo já pesado da idade e a cara marcada pelos homens que se lambuzaram nela,vem de mansinho,com aquele ar de cão agradecido,que sempre usou desde que a trouxe para aqui e pergunta-me baixinho.
-O Senhor quer mais cafézinho.
Olho para ela e a minha cara normalmente dura abre uma espécie de sorriso.
-Sim Maria,obrigado.
Esta mulher,empedernida,iletrada,que um dia quando eu tinha os meus 30 anos me disse:
-Gosto de si como se de um irmão fora.
-Nunca iria consigo para a cama por dinheiro nenhum.
Só porque um dia quando cruzei o Cais do Codré com a minha ex mulher lhe dirigi a saudação.
Anos mais tarde,muitos,fui à procura dela e trouxe-a para o pé de mim.
É a pessoa que juntamente com o Quim "Maluco" me dão segurança.
O Quim Maluco,esse era guarda costa do dono de um Casino clandestino no Estoril.
Casino do qual eu era sócio.
Um assalto ao Casino e o Quim matou dois e feriu mais três dos assaltantes,só que uma shotgun levou-lhe o braço esquerdo.
Desde esse dia,ficou a meu cargo.
Uma vida,muitas vidas,os anos a pesar-me e as memórias correm dentro de mim como um rio revolto.
O meu pai,Deus o tenha em descanso,de carinhos não me lembro,só recriminações e o meu frágil corpo de então a servir para descarregar a raiva de ser pobre.
A minha mãe,essa coitada,andava com cinco anos à lenha e um pedaço de pão e um nico de queijo para refeição de todo o dia.
Pensou encontrar no meu pai o Eldorado da herança de uma tia que nunca veio.
Tornou-se azeda e carinhos também era coisa que não sabia dar.
O meu avô paterno,espanhol da Galiza,fotógrafo e boémio,autididata,veio a cavalo da Guerra de Espanha e por aqui ficou,fazendo dois filhos à mulher.
Nunca o conheci pessoalmente,só através de anotações em livros que guardo ciosamente.
Sei que se matou,quando a sifilis das suas aventuras o deixou,num momento de lucidez.
A minha avó paterna via em mim o fruto de um casamento falhado e tratava-me mal.
O meu avô materno,esse era carpinteiro,mestre na sua arte e um rancho de filhos.
A minha avó materna era mais um produto da época,baixinha,cabelo branco e muitas necessidades passadas.
-Patrãozinho tem aqui o café.
Minha linda Maria,como te quero tanto.
És como se fosses minha filha,somos da mesma idade mas tenho-te um amor infinito,por vezes apetece-me abraçar-te e cobrir-te de beijos ternos,doces,daqueles que nunca ninguem te deu.
Dizem que sou sobredotado,não sei,só sei que poderia ter sido muitas coisas.
Quis o destino que andasse sempre na margem da lei,aquele ténue risco que separa o legal do ilegal.
Quis o destino que sempre me cruzasse com dois tipos de pessoas,o lixo da sociedade e a sociedade feita de lixo.
E o engraçado é que não podem passar uma sem a outra,os trabalhos sujos são mandados por uns mas executados por outros,eu fui assim como que a ponte que os unia.
Sou da geração do 25 de Abril e dessa geração sairam os males que haveriam de destruir o meu País.
Sorvo delicadamente o café enquanto fumo um cigarro e respiro em profundos haustos este ar salino,este cheiro de maresia que invoca medos,aventuras e a coragem de quem o afronta.
Relembro aquelas lanchas voadoras que se afoitavam noite dentro para trazerem de barcos ao largo o contrabando.
As viagens a Marrocos,os mares revoltos que cortavam a face enquanto o barco voava sobre as ondas.
Tantas recordações,tantos amigos que perdi.
O Quim "Rodas",um louco a guiar,mas sempre trazendo a mercadoria em segurança.
O Chico "cauteleiro",acho que ainda é vivo,que me ensinou tudo sobre a lotaria clandestina.
O Senhor Julio,figura impar do Cais do Sodré,sessenta anos bem medidos,sobretudo de pele de camelo,fato completo e relogio com corrente de ouro,chefe dos carteiristas.
Era vê-los chegar para o café da manhã.
Uns vestidos casualmente,outros mais aprumados,mas todos de sapatos de ténis e qualquer peça de vestuário pendurada no braço.
Vinham ao beija mão ao chefe,bebiam apressadamente o café e iam à vida.
À noitinha voltavam e era ali mesmo à vista de todos que faziam a entrega do que tinham arrecadado.
O chefe,reunia tudo e dividia em partes iguais por todos.
Se um ia preso,sabia que a familia nunca ficava desamparada.
Esse ensinou-me tudo sobre a arte de ser carteirista.
Memórias que escorrem por entre os meus dedos.
Esses eram o tipo de pessoas pelas quais nutria respeito,os outros os de colarinho branco,esses metiam-me nojo.
O Joãozinho,dono do bar gay mais conhecido de Lisboa,depois de nos termos entendido sobre a orientação sexual de cada um de nós foi e será sempre alguém que estimo como se um pai fosse.
Com ele aprendi os meandros do mundo gay,descobri que dentro daqueles corpos trocados existe uma alma enorme,uma sensibilidade e uma bondade interior que só quem com eles privou pode saber.
Claro que este mundo descrito também tem o seu lado negro,gente que não vale um pataco,mas esses são postos à margem rápidamente,usam-se e deitam-se fora quando já prestaram o serviço que se pretendia.
Tanta gente para recordar.....
Os graxas,figuras que o progresso engoliu,uns velhos e sem outro meio de subsistência,outros gabirus do piorio,mas de todos se podia aproveitar qualquer coisa.
Serviram-me de olheiros,por eles sabia e avaliava o pulsar de Lisboa.
Assim como os barbeiros,auxiliares fundamentais na vida que escolhi ou que me escolheu,já nem sei bem.
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