Porquê

Este sou eu,como em todos os romances há partes tiradas da realidade e partes são fantasia.
Cabe ao leitor decidir se é tudo realidade ou não.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Capitulo 1

Na vivenda sobranceira ao Guincho,no fim de um caminho de terra,olho o Atlântico sombrio que a duros golpes tenta engolir a terra e abrir caminho sabe-se lá para onde.
A meus pés,Demon o bull terrier recebe os raios de sol.
Maria,uma velha prostituta que tirei da vida,corpo já pesado da idade e a cara marcada pelos homens que se lambuzaram nela,vem de mansinho,com aquele ar de cão agradecido,que sempre usou desde que a trouxe para aqui e pergunta-me baixinho.
-O Senhor quer mais cafézinho.
Olho para ela e a minha cara normalmente dura abre uma espécie de sorriso.
-Sim Maria,obrigado.
Esta mulher,empedernida,iletrada,que um dia quando eu tinha os meus 30 anos me disse:
-Gosto de si como se de um irmão fora.
-Nunca iria consigo para a cama por dinheiro nenhum.
Só porque um dia quando cruzei o Cais do Codré com a minha ex mulher lhe dirigi a saudação.
Anos mais tarde,muitos,fui à procura dela e trouxe-a para o pé de mim.
É a pessoa que juntamente com o Quim "Maluco" me dão segurança.
O Quim Maluco,esse era guarda costa do dono de um Casino clandestino no Estoril.
Casino do qual eu era sócio.
Um assalto ao Casino e o Quim matou dois e feriu mais três dos assaltantes,só que uma shotgun levou-lhe o braço esquerdo.
Desde esse dia,ficou a meu cargo.
Uma vida,muitas vidas,os anos a pesar-me e as memórias correm dentro de mim como um rio revolto.
O meu pai,Deus o tenha em descanso,de carinhos não me lembro,só recriminações e o meu frágil corpo de então a servir para descarregar a raiva de ser pobre.
A minha mãe,essa coitada,andava com cinco anos à lenha e um pedaço de pão e um nico de queijo para refeição de todo o dia.
Pensou encontrar no meu pai o Eldorado da herança de uma tia que nunca veio.
Tornou-se azeda e carinhos também era coisa que não sabia dar.
O meu avô paterno,espanhol da Galiza,fotógrafo e boémio,autididata,veio a cavalo da Guerra de Espanha e por aqui ficou,fazendo dois filhos à mulher.
Nunca o conheci pessoalmente,só através de anotações em livros que guardo ciosamente.
Sei que se matou,quando a sifilis das suas aventuras o deixou,num momento de lucidez.
A minha avó paterna via em mim o fruto de um casamento falhado e tratava-me mal.
O meu avô materno,esse era carpinteiro,mestre na sua arte e um rancho de filhos.
A minha avó materna era mais um produto da época,baixinha,cabelo branco e muitas necessidades passadas.
-Patrãozinho tem aqui o café.
Minha linda Maria,como te quero tanto.
És como se fosses minha filha,somos da mesma idade mas tenho-te um amor infinito,por vezes apetece-me abraçar-te e cobrir-te de beijos ternos,doces,daqueles que nunca ninguem te deu.
Dizem que sou sobredotado,não sei,só sei que poderia ter sido muitas coisas.
Quis o destino que andasse sempre na margem da lei,aquele ténue risco que separa o legal do ilegal.
Quis o destino que sempre me cruzasse com dois tipos de pessoas,o lixo da sociedade e a sociedade feita de lixo.
E o engraçado é que não podem passar uma sem a outra,os trabalhos sujos são mandados por uns mas executados por outros,eu fui assim como que a ponte que os unia.
Sou da geração do 25 de Abril e dessa geração sairam os males que haveriam de destruir o meu País.
Sorvo delicadamente o café enquanto fumo um cigarro e respiro em profundos haustos este ar salino,este cheiro de maresia que invoca medos,aventuras e a coragem de quem o afronta.
Relembro aquelas lanchas voadoras que se afoitavam noite dentro para trazerem de barcos ao largo o contrabando.
As viagens a Marrocos,os mares revoltos que cortavam a face enquanto o barco voava sobre as ondas.
Tantas recordações,tantos amigos que perdi.
O Quim "Rodas",um louco a guiar,mas sempre trazendo a mercadoria em segurança.
O Chico "cauteleiro",acho que ainda é vivo,que me ensinou tudo sobre a lotaria clandestina.
O Senhor Julio,figura impar do Cais do Sodré,sessenta anos bem medidos,sobretudo de pele de camelo,fato completo e relogio com corrente de ouro,chefe dos carteiristas.
Era vê-los chegar para o café da manhã.
Uns vestidos casualmente,outros mais aprumados,mas todos de sapatos de ténis e qualquer peça de vestuário pendurada no braço.
Vinham ao beija mão ao chefe,bebiam apressadamente o café e iam à vida.
À noitinha voltavam e era ali mesmo à vista de todos que faziam a entrega do que tinham arrecadado.
O chefe,reunia tudo e dividia em partes iguais por todos.
Se um ia preso,sabia que a familia nunca ficava desamparada.
Esse ensinou-me tudo sobre a arte de ser carteirista.
Memórias que escorrem por entre os meus dedos.
Esses eram o tipo de pessoas pelas quais nutria respeito,os outros os de colarinho branco,esses metiam-me nojo.
O Joãozinho,dono do bar gay mais conhecido de Lisboa,depois de nos termos entendido sobre a orientação sexual de cada um de nós foi e será sempre alguém que estimo como se um pai fosse.
Com ele aprendi os meandros do mundo gay,descobri que dentro daqueles corpos trocados existe uma alma enorme,uma sensibilidade e uma bondade interior que só quem com eles privou pode saber.
Claro que este mundo descrito também tem o seu lado negro,gente que não vale um pataco,mas esses são postos à margem rápidamente,usam-se e deitam-se fora quando já prestaram o serviço que se pretendia.
Tanta gente para recordar.....
Os graxas,figuras que o progresso engoliu,uns velhos e sem outro meio de subsistência,outros gabirus do piorio,mas de todos se podia aproveitar qualquer coisa.
Serviram-me de olheiros,por eles sabia e avaliava o pulsar de Lisboa.
Assim como os barbeiros,auxiliares fundamentais na vida que escolhi ou que me escolheu,já nem sei bem.

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